World Poetry Day 2022

Today, 21th of March, the World Poetry Day is celebrated!

Dia Mundial da Poesia

Here you will find the poems we received from our academic community:


O tempo vive

O tempo vive, quando os homens, nele,
se esquecem de si mesmos,
ficando, embora, a contemplar o estreme
reduto de estar sendo.
O tempo vive a refrescar a sede
dos animais e do vento,
quando a estrutura estremece
a dura escuridão que, desde dentro,
irrompe. E fica com o uivo agreste
espantando o seu estrondo de silêncio.

from Fernando Echevarría [sent by Maria do Céu Melro – works at the Fernando Pessoa Foundation Libraries]


Aceita o universo

Aceita o universo
Como to deram os deuses.
Se os deuses te quisessem dar outro
Ter-to-iam dado.

Se há outras matérias e outros mundos
Haja.

from Alberto Caeiro [sent by Carlos Ferreira – works at the Fernando Pessoa Foundation Libraries]


Aqui nesta praia 

Aqui nesta praia onde
Não há nenhum vestígio de impureza,
Aqui onde há somente
Ondas tombando ininterruptamente,
Puro espaço e lúcida unidade,
Aqui o tempo apaixonadamente
Encontra a própria liberdade.

from Sophia de Mello Breyner [sent by Ana Moreira – works at the Fernando Pessoa Foundation Libraries]


Ser Poeta é ser mais alto

Ser Poeta é ser mais alto, é ser maior
Do que os homens! Morder como quem beija!
É ser mendigo e dar como quem seja
Rei do Reino de Aquém e de Além Dor!

from Florbela Espanca [sent by Ana Azevedo – works at the Fernando Pessoa Foundation Libraries]


É urgente inventar alegria

É urgente inventar alegria,
multiplicar os beijos, as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras.

Cai o silêncio nos ombros e a luz
impura, até doer.
É urgente o amor, é urgente
permanecer.

from Eugénio de Andrade [sent by Mónica Braga – works at the Fernando Pessoa Foundation Libraries]


Tu

no teu castelo construído de ti, tão forte como as verdades puras, tão tocantemente belo, tão humano com o que há de seguro e bom em sê-lo, consegues com mil carinhos, mil afagos, mil botões de flor, mil raios de luz, iluminar a vida de quem acredita e se esquece, de quem ama e perde o norte, de quem sofre e sente a dor.

Amo a tua fé, a tua clareza, a tua forma teimosa de viver!

E amo os teus cansaços, o teu cuidado, as tuas muralhas viradas a Norte (todas as que conheço e as que apenas adivinho)… porque são elas que te fazem florir exuberantemente a Sul e te tornam tão deslumbrante a quem te sente.

from Verónica Abreu [sent by Verónica Abreu – teacher at the Higher School of Health Fernando Pessoa]


Liberdade

Quando entrei na cidade fiquei sozinho no meio da multidão.
Em redor as portas estavam abertas. A multidão entrava naturalmente pelas portas abertas. Por cima das portas havia tabuletas onde estava colada aquela palavra que sobe – Liberdade!
Entrei por uma porta. Entrei como uma farpa!
Era uma ratoeira, Mãe! Era uma ratoeira! Se eu tivesse entrado como uma agulha podia ter saído como uma agulha, mas entrei como uma farpa, fiz sangue verdadeiro, já não me esquece. Aconteceu exactamente. Dei um mau jeito nos rins por causa da ratoeira! Ainda me lembro da palavra – Liberdade!

video [reading by Ricardo Regalado]

from José Almada Negreiros [sent by Ana Moutinho – works at the International Relations Office of the Fernando Pessoa Foundation]


Quando vier a Primavera

Quando vier a Primavera,
Se eu já estiver morto,
As flores florirão da mesma maneira
E as árvores não serão menos verdes que na Primavera passada.
A realidade não precisa de mim.

Sinto uma alegria enorme
Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma

Se soubesse que amanhã morria
E a Primavera era depois de amanhã,
Morreria contente, porque ela era depois de amanhã.
Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo?
Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo;
E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse.
Por isso, se morrer agora, morro contente,
Porque tudo é real e tudo está certo.

Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem.
Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele.
Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências.
O que for, quando for, é que será o que é.

video [reading by Pedro Lamares]

from Alberto Caeiro [sent by Carlos Ferreira – works at the Fernando Pessoa Foundation Libraries]


Piano

Era uma vez um pianista,
Que se lembrou de recitar.
Quando queremos tocar notas
Devemos de no piano experimentar.
Podem até parecer soltas,
Mas ficam para durar.

A música é uma arte,
Não nos devemos interrogar,
Por muito que seja relativa,
É mais leve que o olhar.

Qualquer pessoa pode ser artista,
Às vezes sem saber
Basta começar a desbravar,
As entranhas do seu ser.

Convém, no entanto,
Nunca temer
Qualquer crítica exterior,
Porque quando se acredita,
O mundo fica bem maior.
E o artista regressa,
Ao seu piano de estimação
Sem nunca perder a esperança,
E o fogo no coração.

Bonança que o gratifica e faz feliz,
Até quando o mundo não entende.
Qual o motivo por que Deus quis,
Em si, inspirar semelhante dom,
Que a todos transcende.

Só as saudades da sua música,
Servem para lhe relembrar
Os tempos de mocidade,
E aquele ingénuo olhar.

Onde imperava a felicidade
Até no rudimentar,
Por muito pequena a novidade,
Nunca deixava de o cativar.

Até o mundo o ter inspirado,
A encontrar um dirigível
Onde pudesse levar
Os seus sonhos e ambições,
Até se refugiar
Das suas maiores obrigações.

from Pedro Miguel Neves Maia [sent by Pedro Miguel Neves Maia – BA in Communication Sciences at University Fernando Pessoa]


Mãe

Mãe:
Que desgraça na vida aconteceu,
Que ficaste insensível e gelada?
Que todo o teu perfil se endureceu
Numa linha severa e desenhada?

Como as estátuas, que são gente nossa
Cansada de palavras e ternura,
Assim tu me pareces no teu leito.
Presença cinzelada em pedra dura,
Que não tem coração dentro do peito.

Chamo aos gritos por ti — não me respondes.
Beijo-te as mãos e o rosto — sinto frio.
Ou és outra, ou me enganas, ou te escondes
Por detrás do terror deste vazio.

Mãe:
Abre os olhos ao menos, diz que sim!
Diz que me vês ainda, que me queres.
Que és a eterna mulher entre as mulheres.
Que nem a morte te afastou de mim!

from Miguel Torga [sent by Germano Couto – teacher at the Higher School of Health Fernando Pessoa]


Esparsa sua ao desconcerto do mundo

Os bons vi sempre passar
No mundo graves tormentos;
e, para mais m’ espantar,
os maus vi sempre nadar
em mar de contentamentos.
Cuidando alcançar assim
o bem tão mal ordenado,
fui mau; mas fui castigado.
Assim que só para mim
anda o mundo concertado.

video [Mundo dos Poemas]

from Luís de Camões [sent by Rute Meneses – teacher at the University Fernando Pessoa]


A criança que fui chora na estrada

I
A criança que fui chora na estrada.
Deixei-a ali quando vim ser quem sou;
Mas hoje, vendo que o que sou é nada,
Quero ir buscar quem fui onde ficou.
Ah, como hei-de encontrá-lo? Quem errou
A vinda tem a regressão errada.
Já não sei de onde vim nem onde estou.
De o não saber, minha alma está parada.
Se ao menos atingir neste lugar
Um alto monte, de onde possa enfim
O que esqueci, olhando-o, relembrar,
Na ausência, ao menos, saberei de mim,
E, ao ver-me tal qual fui ao longe, achar
Em mim um pouco de quando era assim.
II
Dia a dia mudamos para quem
Amanhã não veremos. Hora a hora
Nosso diverso e sucessivo alguém
Desce uma vasta escadaria agora.
E uma multidão que desce, sem
Que um saiba de outros. Vejo-os meus e fora.
Ah, que horrorosa semelhança têm!
São um múltiplo mesmo que se ignora.
Olho-os. Nenhum sou eu, a todos sendo.
E a multidão engrossa, alheia a ver-me, Sem que eu perceba de onde vai crescendo.
Sinto-os a todos dentro em mim mover-me,
E, inúmero, prolixo, vou descendo
Até passar por todos e perder-me.
III
Meu Deus! Meu Deus! Quem sou, que desconheço
O que sinto que sou? Quem quero ser
Mora, distante, onde meu ser esqueço,
Parte, remoto, para me não ter.

from Fernando Pessoa [sent by Sílvia Marisa Neves da Costa Pinto – BA student in Psychology at University Fernando Pessoa]


Até amanhã

Sei agora como nasceu a alegria,
Como nasce o vento entre barcos de papel,
Como nasce a água ou o amor
Quando a juventude não é uma lágrima.

from Eugénio de Andrade (excerpt from the poem) [sent by Pedro Melo Pestana – teacher at the Higher School of Health Fernando Pessoa]


Cântico Negro

“Vem por aqui” — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: “vem por aqui!”
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali…

A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos…
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: “vem por aqui!”?
Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí…
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?…
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos…

Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios…
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios…

Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: “vem por aqui”!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou…
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!

video [reading by Paulo Gracindo] and video [mix by David Bt FT over João Villaret’s voice]
from José Régio [sent by Rui Leandro Maia – teacher at University Fernando Pessoa]


Soror Mariana – Beja

Cortaram os trigos. Agora
A minha solidão vê-se melhor.

from Sophia Mello Breyner [sent by João Ferreira – teacher at University Fernando Pessoa]


Vida

Choveu! E logo da terra humosa
Irrompe o campo das liliáceas.
Foi bem fecunda, a estação pluviosa!
Que vigor no campo das liliáceas!

Calquem. Recalquem, não o afogam.
Deixem. Não calquem. Que tudo invadam.
Não as extinguem. Porque as degradam?
Para que as calcam? Não as afogam.

Olhem o fogo que anda na serra.
É a queimada… Que lumaréu!
Podem calcá-lo, deitar-lhe terra,
Que não apagam o lumaréu.

Deixem! Não calquem! Deixem arder.
Se aqui o pisam, rebenta além.
– E se arde tudo? – Isso que tem?
Deitam-lhe fogo, é para arder…

from Camilo Pessanha [sent by Vitor Teixeira – teacher at University Fernando Pessoa]


Deriva VIII

Vi as águas os cabos vi as ilhas
E o longo baloiçar dos coqueirais
Vi lagunas azuis como safiras
Rápidas aves furtivos animais
Vi prodígios espantos maravilhas
Vi homens nus bailando nos areais
E ouvi o fundo som das suas falas
Que nenhum de nós entendeu mais
Vi ferros e vi setas e vi lanças
Oiro também à flôr das ondas finas
E o diverso fulgor de outros metais
Vi pérolas e conchas e corais
Desertos fontes trémulas campinas
Vi o rosto de Eurydice das neblinas
Vi o frescor das coisas naturais
Só do Preste João não vi sinais
As ordens que levava não cumpri
E assim contando tudo quanto vi
Não sei se tudo errei ou descobri.

video [reading by Diogo Infante]

from Sophia Mello Breyner [sent by Pedro Silva – teacher at University Fernando Pessoa]


Elegia em forma de Epístola

A circunstância de sermos homem e mulher
presos por uma aliança tácita
e secreta
do sangue
é que nos prende à vida, meu amor, e nos salva.

Nascemos sem passaporte,
entre fronteiras guardadas
por sentinelas de sal e de silêncio.

O rio da história corre, estrangulado, entre as pedras,
e o cascalho, e os detritos humanos,
e a alegria suicida das coisas limpas e puras
abandonadas e soltas à vertigem da morte.

Construímos
para nossa defesa
um muro de ironia e de sarcasmo
– imponderável cortina
de humana ternura envergonhada
ou, como tu dizes, perseguida.

O silêncio é a corda
que nos prende aos mastros,
a antena vegetal por onde
a vida se insinua,
universal e atenta.

Marinheiros de uma pátria
ancorada no tempo,
bebemos o sal dos minutos que passam
e adormecemos, hirtos, de costas para o mar.

from Albano Martins [sent by Isabel Martins – psychologist at Fernando Pessoa Foundation]


A arquitectura da luz

Na passagem do tempo
toda uma paisagem
toma diferentes cambiantes.

a arquitectura da luz
projecta os rostos
perante o olhar

e a sonolência dita
a memória sem fim.

from Fernando Bouça [sent by Manuel Cerveira Pinto – teacher at the University Fernando Pessoa]


Bluebird

there’s a bluebird in my heart that
wants to get out
but I’m too tough for him,
I say, stay in there, I’m not going
to let anybody see
you.

there’s a bluebird in my heart that
wants to get out
but I pour whiskey on him and inhale
cigarette smoke
and the whores and the bartenders
and the grocery clerks
never know that
he’s
in there.

there’s a bluebird in my heart that
wants to get out
but I’m too tough for him,
I say,
stay down, do you want to mess
me up?
you want to screw up the
works?
you want to blow my book sales in
Europe?

there’s a bluebird in my heart that
wants to get out
but I’m too clever, I only let him out
at night sometimes
when everybody’s asleep.
I say, I know that you’re there,
so don’t be
sad.
then I put him back,
but he’s singing a little
in there, I haven’t quite let him
die
and we sleep together like
that
with our
secret pact
and it’s nice enough to
make a man
weep, but I don’t
weep, do
you?

vídeo [SpokenVerse]

from Charles Bukowski [sent by Mariana Isabel Gomes da Rocha Couto – Integrated Master student in Pharmaceutical Sciences at University Fernando Pessoa]


Tabacaria

(Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)

from Álvaro de Campos (excerpt from the poem) [sent by Jorge Pedro Sousa – teacher at University Fernando Pessoa]


Soneto de fidelidade

Enviado por Rafani Januário
De tudo, ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento.

E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.

video [reading by Vinicius de Moraes]

from Vinicius de Moraes (excerpt from the poem) [sent by Rafani Marostica Januario – BA student in Psychology at University Fernando Pessoa]


Do alto deste penedo

Do alto deste penedo
Enfrento o mar
Engulo o meu medo,
Vou mergulhar!
Da superfície irada
Ao pacífico fundo
Quero, vagueando,
Explorar esse mundo,
Onde tudo é azul
E quem lá mora flutua.
Descobrir dentro
Do espelho
A verdadeira face
Da lua.
Desvendar os segredos
Que encerra
A parte oculta da Terra,
No ir e vir
Da maré,
Deixar-me à deriva
Com Fé.
De nunca mais
Vir dar à costa,
Na espuma das ondas
Ler a resposta
Ao maior mistério,
E no negro leito,
Num sonho perfeito
Fechar os olhos,
Tornar-me etéreo!

from Miguel Rocha dos Santos [sent by Maria Manuela Santos – PhD in Social Sciences at University Fernando Pessoa]


Reinvenção

A vida só é possível
reinventada.
Anda o sol pelas campinas
e passeia a mão dourada
pelas águas, pelas folhas…
Ah! tudo bolhas
que vem de fundas piscinas
de ilusionismo… – mais nada.
Mas a vida, a vida, a vida,
a vida só é possível
reinventada.
Vem a lua, vem, retira
as algemas dos meus braços.
Projeto-me por espaços
cheios da tua Figura.

from Cecília Meireles [sent by Maria Gil Ribeiro – teacher at University Fernando Pessoa]


Primeira Elegia (Elegias de Duíno)

Quem, se eu gritasse, me ouviria de entre as ordens
dos anjos? e mesmo que um deles, de repente,
me cingisse ao coração: eu desfaleceria da sua
existência mais forte. Pois o belo não é mais
do que o começo do terrível, que ainda mal suportamos,
e deslumbra-nos assim porque, imperturbado,
desdenha aniquilar-nos. Todo o anjo é terrível.
E eu me retraio então e engulo o chamariz
do escuro soluçar.

from Rainer Maria Rilke (excerpt from the poem) [sent by Luísa Vasconcelos – teacher at Universidade Fernando Pessoa]